Explore os Princípios e Valores da Psicanálise com Ilka Franco Ferrari

Nesta seção, você encontra uma introdução clara aos temas centrais do trabalho da psicanalista Ilka Franco Ferrari, com reflexões sobre psicanálise, saúde mental e bem-estar emocional.

Amor e Psicose

Em entrevista à Psychologies Magazine, de outubro de 2008, Hanna Waar
pergunta a Jacques-Alain Miller o que é amar verdadeiramente. E sua
resposta ressoa fidelidade a Freud e Lacan:
“Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a
uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou
uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu?”.
Na sequência surge a questão: Por que alguns sabem amar e outros não? Ao
esclarecer, também através das coordenadas psicanalíticas, em determinado
momento Miller afirma: “Para amar, é necessário confessar sua falta e
reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que
creem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes,
o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do
amor não conhecem nem o risco, nem as delícias”. 
Não é complicado acessar toda entrevista e recomendo a leitura completa.
Paro, no entanto, neste ponto. Isto porque, meu desejo aqui é colocar em
reflexão a questão do amor para os sujeitos psicóticos. Se para amar é
necessário confessar sua falta e, considerando o que implica “a falta” no
processo de constituição dos sujeitos, tal como formalizou a psicanálise,
consequentemente é inevitável a pergunta se, para estes sujeitos, a
experiência de amar é possível.
Lacan não se esquivou do assunto e afirmou que se podemos dizer que há
amor, na psicose, trata-se de um amor morto. Na sequência deixo duas
referências acerca do assunto.

FERRARI, Ilka Franco. Acerca do amor e algumas de suas particularidades
na psicose. Arquivos Brasileiro de Psicologia, Rio de Janeiro, v.61 n.3,

  1. In:
    https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-
    52672009000300010
    FERRARI, Ilka Franco; MENDES, Astarute Maria. Pontuações acerca do
    amor na neurose e na psicose: ensinamentos de Camille Claudel.
    Psicologia em Revista, Belo Horizonte, vol.25 no.3, 2019. In:

https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-11682019000300011&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt


Solidão

Não é infrequente encontrar quem assegure que a psicanálise, com sua
teoria e prática, não se preocupa com o social. O tratamento, ai céus, é
demorado e a vida urge! As sessões são caras e curtas! O psicanalista é
distante e elitizado…por aí seguem várias críticas. Desconhecimento, com
certeza.
O leitor cuidadoso encontra com facilidade, em Freud, o foco na questão do
social, sua preocupação com os vínculos que os sujeitos estabelecem em
dada realidade. Basta tomar como exemplo o texto Psicologia das massas e
análise do eu, de1921. Ainda que ele não usasse a expressão “realidade
social”, as coordenadas que compõem esta ideia estão presente em sua
obra.
Lacan, por sua vez, já no início de seu percurso se encontra com as trilhas
de Durkheim, como pode ser constatado no texto de 1938, Os complexos
familiares na formação do indivíduo, publicado com o título ¨”A família na
Encyclopédie française”. Trabalhou considerando a realidade social sendo
inscrita na relação fundamental que se estabelece entre o sujeito e o Outro,
formalizou a teoria dos discursos como formas de laços sociais e até
considerou a psicanálise com prática que é da ordem do social, como um
laço social.
De fato, nestes dois autores encontramos forte solidariedade entre a
dimensão do particular e do coletivo, o que torna compreensível a
afirmação de que a subjetividade varia segundo a época, e que os sintomas
mudam, dependendo do contexto discursivo.
Por isso mesmo, em psicanálise o afeto solidão é respeitado. Tanto Freud
quanto Lacan toparam com uma solidão estrutural, pois inerente à
constituição subjetiva, à verdade que só diz respeito às pulsões dos sujeitos,

levando-os a construções fantasmáticas e sintomáticas. A questão, portanto,
insistia naquilo que os leva a fazer laços, nesta vocação solitária. Cada qual
destes psicanalistas, a seu modo, ensinou que se há esta solidão estrutural,
se esta verdade propicia funcionamento singular, esta condição é a que
também possibilita formas de estabelecimento de laços sociais.
Em Lacan e suas formalizações sobre o discurso do capitalista,
encontramos a elaboração de reduplicamento da solidão. O sujeito com
seus fantasmas e sintomas, mais os objetos gadgets curto circuitando os
laços.
Mas, se Lacan percebeu que há laços sociais fora dos discursos por
ele formalizados, também se deu conta de que há discurso que não
estabelece laço social: o discurso capitalista, por exemplo, que favorece a
passagem da fantasia, máquina de produzir solidão, à realidade. Na lógica
capitalista, como alguns estudiosos asseguram, o efeito da coletivização se
reveste do que se conhece como homogeneização ou globalização. Em
meio à pluralidade de objetos constantemente oferecidos, o processo de
homogeneização é segregativo e favorecer a solidão fantasística. Fomenta
um campo propício ao desenvolvimento das políticas de ação social como
gestoras dos desvios do gozo, cuidando e prevenindo os possíveis riscos de
perda dos vínculos…
Para os interessados no tema, fica o convite para a leitura do texto:

FERRARI, Ilka Franco. A realidade social e os sujeitos solitários.
Ágora, Rio de Janeiro, 11(1), jun. 2008. In:
https://doi.org/10.1590/S1516-14982008000100002